No terceiro dia da maratona cênica proposta pelo Seminário Internacional de Crítica Teatral uma das apresentações da segunda-feira (29) ficou por conta da Cia de Teatro e Dança d’improvizzo Gang, grupo orientado pelo professor, dramaturgo e crítico teatral, Paulo Michelotto. A Casa Mecane se transformou na corte onde mora Ophélia, namorada de Hamlet, que é um dos personagens mais conhecidos da dramaturgia de Shakespeare. É ele que diz a famosa frase “ser ou não ser, eis a questão”, quem não se lembra? A direção de Michelloto traz a obra do grande poeta inglês para o universo atual. Tira o toque rebuscado das palavras (erudição que tornou o texto intocável para uma parcela significativa da sociedade) e devolve sua gênese popular sem perder a essência poética.

O espetáculo é de uma simplicidade tremenda e de soluções cenográficas, de figurino e sonoplastia bastante modestas. O espaço enegrecido foi preenchido com alguns objetos espalhados nas extremidades da área cênica e no centro havia um círculo de fitas coloridas. A Casa estava cheia e cada pessoa que havia ido assistir à peça segurava nas mãos “uma pedra do castelo” que recebemos de um súdito ao entrar na sala de espetáculos. Esse objeto terá um papel relevante no decorrer da cena. Mas por enquanto, caro leitor, visualize essa “tal” pedra na mente (constituída de um papel amassado) e guarde-a em um lugar acessível da memória, pois em breve ela terá o seu devido valor.

A peça é sustentada pela atriz Pollyanna Monteiro que consegue conduzir sua personagem com maestria. Ela entra no espaço cantando e fazendo bolhas de sabão, trajando um vestido branco de noiva e detalhe jeans nos braços com aplicações floridas em algumas áreas. Na testa percebemos uma faixa e seus cabelos longos tocam os ombros. A imagem criada remete ao estilo hippie teatralizado, sem a pretensão de imitar o real. Por sinal, o espetáculo inteiro explora em demasia o potencial do símbolo. A atriz empresta uma delicadeza de menina a seu papel e quebra a quarta parede durante toda a encenação. A participação do público é de fundamental importância para que a história repaginada seja contada.

É nessa escolha que o trabalho proposto cresce e conquista a platéia, que se transforma em elenco também! Aos poucos a Rainha Gertrudes, o Rei Claudio (o Verme), o príncipe Hamlet e o antigo Rei (agora fantasma) surgem na platéia segundo a escolha da atriz. Os que não foram contemplados com papéis principais ganham a função de plebe, que terá um representante oficial na corte: o coveiro, que se “interessa” por política e é manipulado pela Ofélia como um ventríloquo. Ao rirmos da situação jocosa em que o “espect-ator” se encontra somos levados a relembrar o show político brasileiro. Com o passar do tempo entramos cada vez mais no mundo de Hamlet pela ótica da jovem princesa, que toca violão, canta e revela seus segredos, angustias e alegrias.

A encenação não pretende seguir o Hamlet original ao pé da letra e faz com que a apresentação tenha um brilho particular. O texto transformado em pretexto comunica uma linha de trabalho já pesquisada pela companhia denominada de “pós-contemporânea” que se alimenta do improviso e se apresenta em espaços não convencionais.

Ophélia fala na linguagem jovem para jovens que se encontram em meio a fragilidade e a desordem, mas que não tem medo de encarar esse estado caótico. Falando em encarar, lembra da pedra, a bola de papel, do início do texto? Que tal agarrá-la em suas mãos mirar em um alvo (pense quem seria esse alvo, mesmo que imageticamente) e arremessá-la com todo prazer? Foi dessa maneira que a plebe, em uma divertida afronta, atingiu a corte de Elsinor.

Explorar o jogo, valorizar a relação entre ator e público e intensificar a carga simbólica, ou seja, explorar a TEATRALIDADE, talvez seja o antídoto que atraia o público às salas de espetáculo e revele a magia que as produções mecânicas não conseguem atingir.