Há pouco tempo comecei a refletir sobre o tratamento realista seja na estética como um todo ou nas interpretações dos atores do cinema que costumamos assistir, esse das grandes produtoras. Nada contra! Apenas um questionamento: por que tentar imitar a vida, ficar preso aos paradigmas da realidade se o universo artístico nos dá a liberdade de brincar no virtual e mergulhar no infinito de possibilidades do imaginário?

A idéia de capturar uma “fatia da vida” percorre o anseio de artistas desde o tempo em que a sétima arte não existia e o entretenimento ficava por conta dos espetáculos. No teatro, para ilustrar o que falo, chegou-se ao ponto de se colocar carne ensangüentada de animal para dar mais veracidade ao que se passava no palco, isso no final do século XVIII antes dos estudos realistas/naturalistas do diretor, ator e professor russo Constantin Stanislavski. Mas, por que essa viagem à Moscou antiga? Percebo que uma estética longínqua ainda prende boa parcela da produção audiovisual. Nem precisamos ir tão longe, basta lembrarmos do padrão globo de teledramaturgia que, as vezes, abre-se à experimentações, como a minissérie Hoje é dia de Maria.

O longa A rosa púrpura de Cairo, de Wood Allen, desperta o interesse pela disponibilidade de brincar com a fonte de sua natureza: a fábula.  O filme conta a história de Cecília que leva uma vida medíocre, é explorada pelo marido e encontra refúgio na sala de sonhos, o cinema.  Nesse lugar ela pode viver em um mundo perfeito, sem os percalços da vida. É nesse momento que o real, virtual e realidade se confundem, pois um personagem da obra fictícia invade o lado dos espectadores com o objetivo de trilhar a liberdade. Cecília e o “fugitivo” começam a viver uma história de amor no palco da realidade. Uma aventura digna dos clássicos românticos. As situações que a protagonista viverá revela o potencial afetivo do espectador que se identifica com as personagens, com a trama projetada na tela, ou seja, a pura manifestação da catarse. Esse momento de fruição de Cecília nada mais é que a necessidade de amor, carinho e atenção, tudo que o personagem da ficção oferece, contrapondo a realidade dela com o marido.

Depois que o “homem” dos sonhos de Cecília conhece o mundo de “cá”, chega o momento da apaixonada conhecer o mundo de “lá”. Esse intercâmbio de planos causa uma série de confusões, por vezes engraçadíssimas, que desvendam a peculiaridade do sonho e da realidade.

Cecília toma uma decisão para tentar mudar o seu papel no cotidiano, saindo de uma posição passiva para uma autonomia crítica. O cinema torna-se, então, uma janela que permite ao seu apreciador um novo olhar sobre a vida. E quando desejamos que a sorte da personagem aconteça também conosco (fazendo –me até escolher um filme ideal para assistir em casa!), a projeção nos mostra que a realidade não é perfeita.

A rosa púrpura de Cairo sai de cartaz. Eis que surge um novo filme e com ele uma nova oportunidade de rir, chorar, sofrer e novamente sonhar. Fica porém, a reflexão: vale a pena viver sonhando e se esquecer de viver?