O mundo contemporâneo parece nos exigir cada vez mais qualificação, mais versatilidade, mais energia, mais disposição e por aí vai. Tais exigências tornam raras no cotidiano atitudes menos aceleradas, que de alguma forma exigem uma intensidade maior de reflexão, afinal, “perder tempo” é “perder dinheiro”, correto?

Será mesmo? É evidente que precisamos “correr atrás” dos nossos objetivos materiais que vão desde fazer as compras do lar, bancar estudos, pagar carro, financiamento de casa e outras tantas coisas que tornam nossa vida um pouco mais confortável. Entretanto, para arcar com tudo isso, a palavra “correr” precisa mesmo ser levada ao pé da letra?

Será que nossas necessidades materiais são tão urgentes assim?  E quando as conquistamos, estamos satisfeitos? Será que as “riquezas” que estamos acumulando são as que verdadeiramente nos preenchem?

Na realidade, a “correria” cotidiana termina nos deixando sem o devido “tempo” para acumular tesouros que são fundamentais em nossas vidas: os tesouros espirituais.

É do livro “O Pequeno Príncipe” o célebre pensamento: “O essencial é invisível aos olhos”. Quem sabe esta reflexão não ajude a pensar em como podemos acumular os nossos tesouros espirituais?

Talvez desejando um simples bom dia às pessoas com as quais cruzamos (conhecidos e desconhecidos), dando um sorriso aqueles que nos cercam, sendo um pouco mais tolerante com nossos familiares, tendo mais presteza com nossos colegas de trabalho, doando nossa atenção a causas relevantes ou mesmo, tendo prazer em servir sem fazer a famosa pergunta “o que eu ganho com isso”? 

Acumular estes tesouros, em tese, pode até parecer fácil, mas a verdade é que na vida prática os empecilhos são muitos. Principalmente porque as riquezas materiais muitas vezes nos criam máscaras diante da sociedade, gerando uma espécie de “esquizofrenia social”, ou seja, quando nossas atitudes são incoerentes com as nossas posições na vida. É quando o indivíduo é um tipo de pessoa no trabalho, outro na vida familiar, outro com os amigos e por aí vai.

Na internet, as redes sociais são verdadeiras janelas para esse mal. Quem nunca se deparou com postagens de pessoas ostentando coisas que nem sempre condiz com o que elas são ou tem? É muito comum nos depararmos com valores cada vez mais vazios, onde o poder, o dinheiro, a ganância, a inveja e os julgamentos parecem predominar no subconsciente popular. Efeito nítido da “esquizofrenia social”.

E o que fazer para fugir dela? No mínimo tendo atitudes mais fraternas em qualquer que seja a posição no cotidiano: sendo chefe, subordinado, mãe, pai, filho, esposa, marido, amigo ou colega.  É como diria santo Agostinho: “Precisamos um dos outros para sermos nós mesmos”. Pensando desta forma, com certeza ficaremos bem longe das tais máscaras condenatórias.

Semear a consciência de que as riquezas da terra são passageiras, talvez seja a melhor herança que podemos deixar para os nossos filhos e às gerações futuras. E que com fé, esperança e amor é possível mudar não a humanidade toda de uma só vez, mas uma pequena parte dela: a nossa parte.

*Reflexão desenvolvida a partir da leitura da passagem bíblica O Rico Insensato Lc 12,13-21