Não, não verei mais aquela cabecinha branca se destacando em meio a tantas pessoas no saguão do aeroporto reluzindo as cores da sua larga experiência na terra;
Não tocarei mais aquelas mãos calejadas e traçadas de veias que tão dignamente proveram o sustento de tanta gente; Nem poderei mais beijá-las para pedir sua benção;
Não ouvirei mais o seu terno: Deus te abençoe minha
! Nem sua risada quando lhe dava um cheiro no cangote e dizia o quanto seu aroma era bom.
Não deitarei mais minha cabeça em seu colo, nem receberei cafuné dado com uma força um tanto desajeitada, mas cheio de ternura e carinho;
Não conversarei mais sobre histórias revolucionárias, humanistas e de lutas em prol dos mais oprimidos, ainda que contadas inúmeras vezes;
Não poderei mais rir de seus causos verbalizados com a maestria de um verdadeiro humorista;
Não lerei mais novos cordéis com narrativas e descrições do seu dia a dia e da sociedade;
A reza do terço não terá mais o tom enfático e grave propagado por sua voz principalmente na hora da salve-rainha;
Não terei mais o seu abraço na hora de dar ‘a paz de Cristo’ no meio da missa;
Nem olharei mais dentro de seus olhos para demonstrar meu orgulho de ter como pai, um avô que foi muito além do que os laços familiares determinavam.
Porém…
Ainda que não tenha mais a oportunidade de viver tudo isso novamente viverei para que suas ações nunca morram pelo simples e precioso fato de ter seu sangue correndo em minhas veias e que, aonde quer que eu esteja, sei que ele sempre estará comigo: sorrindo, motivando e aplaudindo a continuidade da sua própria história.