Uma análise sobre a repercussão da obra musical de Chico Buarque do ponto de vista do jornalismo cultural
Sendo um dos artistas mais representativos para a cultura brasileira, Chico Buarque de Holanda se estende por quatro décadas, legando ao país uma obra extensa e diversificada.
Do período ditatorial até os dias atuais, seu trabalho passa pela a história do Brasil na música, na literatura, no teatro e até mesmo na dança e no cinema. Não apenas registrando a história, Chico consegue como poucos artistas contemporâneos, amarrar e comunicar desde a experiência coletiva aos segredos e abismos da subjetividade de cada um.
Assim, amado por uns e nem tanto por outros, sua consagração é fato, mas segue na contramão da cultura dominante.
O jornalismo cultural tem como algumas de suas funções construir uma identidade, democratizar o conhecimento e gerar um caráter reflexivo a partir dos vários conhecimentos humanos.
Segundo o antropólogo, sociólogo e filósofo francês Eduardo Morin, o campo interdisciplinar do jornalismo cultural tem a função de revelar “que em toda grande obra de literatura, poesia, música e afins, há um pensamento profundo sobre a condição humana”.
Sendo assim, a obra de Chico Buarque de Holanda do início até os dias atuais, segue como grande colaboradora para a evolução desse campo da comunicação.
No seu último CD lançado pela gravadora Biscoito Fino, intitulado com o seu primeiro nome, Chico Buarque foi taxado por alguns de decadente por não ser hoje o Chico do passado.
Perspectivas
Na chamada lógica do pensamento formal a linearidade de objetivos é crescente, os conceitos são rigorosamente definidos e as regras universais. A ética é utilitarista, a verdade é absoluta e a dicotomia é uma constante.
Seguindo essa linha, o jornalista Rodrigo Levino em seu artigo “Novo Chico Buarque dá saudade do velho” publicado na Revista Veja, defende um ponto de vista indutivo. Segundo ele, o 44º disco do cantor “é uma peça pálida perto do samba que marcou uma geração”, quando compara o verso “amar uma mulher sem orifício” da canção Querido Diário, com outras composições da galeria do Chico entre as décadas de 60 e 80.
Na lógica pós-formal, mais que explicar, é preciso compreender num sentido mais profundo a pluralidade das manifestações. Nela as verdades são provisórias, há uma negociação do afeto, as regras são autorais e a razão está ligada à emoção.
Esta, ao que parece é a lógica do artigo “Chico, um sedutor”, escrito pelo músico e escritor Tony Belloto, publicado na revista Cult sobre o mesmo tema abordado por Levino: o último CD de Chico Buarque.
No artigo, Belotto define a obra como “a simplicidade de um artista no exercício de seu ofício”, quando fala da força poética das suas composições. Seu olhar sob a canção Querido Diário é clara: “ouvimos um homem apaixonado, falando do amor de maneiras diferentes e sempre paradoxalmente originais, mesclando certa estranheza com um sabor de nostalgia, como a que sentimos ao ouvir velhas músicas no rádio”.
Pelo visto, o rompimento dicotômico, intrínseco em Chico Buarque e reafirmado no texto de Belotto, é o que permite o público interpretar com profundidade, temas que vão além do óbvio.
Mas, na visão ‘vejaniana’, pontuada por Rodrigo Levino “(…) o público vai se deparar com versos ruins (“amar uma mulher sem orifício”), pretensiosos (“trouxe um porrete a mó de me quebrar / mas eu não quebro porque sou macio”) e bobos (“meu cabelo é cinza / o dela é cor de abóbora”, feito para a namorada, Thais Gulin), que para ele se traduz em “um trabalho sem jovialidade, retrato de um ocaso criativo que infelizmente parece irreversível”. Finaliza ele, desta forma, seu artigo para a revista Veja.
Analisar uma canção por trechos sem se remeter ao todo, lembra até algumas questões de prova de vestibular quando é pedido para sintaticamente avaliarmos as letras de Chico Buarque de Holanda. Tal análise até seria permitido a Tony Belotto uma vez que ele já apresentou um programa de TV sobre a língua portuguesa (o Afiando a língua do canal Futura), mas ele prefere concluir seu artigo desenvolvido para a revista Cult de uma maneira diferente:
“Numa das mais belas canções do disco, Barafunda, Chico diz assim: E salve a floresta, salve a poesia / E salve este samba antes que o esquecimento / Baixe seu manto / Seu manto cinzento / Era Aurora / Não, era Barbarela / Juro que eu ia até o Cazaquistão atrás dela / A vida é bela / É Garrincha, é Cartola e é Mandela, precisa dizer mais alguma coisa?”.
Creio que na discussão destes argumentos antagônicos, o jornalismo cultural cumpre o papel de descortinar as obras culturais, em seu sentido mais forte no que possuem de estético e ético. Nos casos acima analisados, um fala que o atual Chico no exercício de seu ofício é o que o torna eterno. Já o outro acredita que a renovação criativa do cantor já deu o que tinha que dar. E a medida destas opiniões onde fica? Talvez no olhar sem limites de cada um de nós.
Confira os artigos analisados em:
Revista Veja: http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/novo-chico-buarque-da-saudade-do-velho
Revista Cult: http://revistacult.uol.com.br/home/2011/08/chico-um-sedutor/

Olá,
Muito interessante essa postagem!
Achei enquanto procurava conteúdos sobre o Chico.
Abraços,
Zuza Zapata http://www.zuzazapata.com.br
Obrigada Zuza. Dei uma olhada no seu site e achei hiper legal. Vamos nos divulgar em ambos dos sites? Vc pode colocar o link do meu site no campo \’outros trabalhos\’ da sua página e eu coloco o link do seu no menu \’blogosfera\’ do meu.E aí o que achas? bjs!