Parteira tradicional, Francisca de Oliveira, a Célia, é também subdelegada de polícia do município de Iranduba no Amazonas, da comunidade de São Sebastião da Serra Baixa, interior de Manaus.
Até os dois anos ela não era batizada. Na época, um acidente grave deixou seu corpo da cabeça até a cintura queimado em carne viva. Sua mãe, através de uma promessa a São Francisco de Assis, pediu para que sua filha não ficasse com seqüelas. Sendo assim, Célia tornou-se Francisca uma mulher marcada pela vida.
Aos 53 anos, Célia é uma mulher de muita vivência. Passado o obstáculo da infância, na juventude, em 1978, a amazonense se confrontou com outro desafio. Trabalhadora de um laboratório de fotografia em Manaus, os recursos técnicos naquele tempo eram precários. Vítima de uma intoxicação decorrente dos produtos utilizados no trabalho, Célia procurou um médico que lhe deu apenas seis meses de vida por causa de um aneurisma o que a fez passar por seis cirurgias.
A fim de fazer seu pouco tempo valer a pena, ela decidiu morar junto com o marido e os filhos no interior e passar seus últimos momentos na tranqüilidade do campo. Mas o destino fez a doença não se alastrar e foi em São Sebastião da Serra Baixa, município que fica entre o famoso Rio Negro e Solimões, que Célia tornou-se parteira e subdelegada da sua comunidade. “Ao invés de morrer no interior, eu revivi nele”, afirma.
Convidada pela ONG Cais do Parto de Pernambuco para participar da Reunião Internacional e Estadual de Parteiras Tradicionais, há 22 anos Célia realiza partos humanizados e carrega em sua lista 58 crianças nascidas de suas mãos. “A vida é o presente mais valioso de um ser humano. Devemos fazer dela um ato de coragem, amor e respeito ao outro ser que também a possui. Sempre lembro isso às mães em que faço os partos”.
Parteiras de vários países participam desses encontros no mundo. Além de discutir a regulamentação da profissão, as reuniões proporcionam a essas mulheres a troca de experiência e a ampliação da rede de relacionamento entre as parteiras. “Estou muito feliz em partipar. Sempre levo idéias para a construção de ações numa associação na minha cidade a exemplo da ONG Cais do Parto”, diz Célia.
Mas, seu trabalho não é restrito apenas a fazer partos. Diante de tanto respeito conquistado pelos moradores, a parteira foi nomeada pelo prefeito da sua região, subdelegada de polícia voluntária de São Sebastião da Serra Baixa. “Sou uma espécie de Severino quebra galho da comunidade. Se alguém tá com algum problema conjugal, filhos, vizinhos ou qualquer outro que possa ameaçar a vida de alguém, vou até o local para resolver a ocorrência”, conta.
Sua história de trabalho em prol da humanização fez da mulher Célia uma respeitada e reconhecida representante da vida. Seja ocorrência policial ou de parto a amazonense não mede esforços em resolver. “Vou onde a vida me chamar”, conclui. ●
