O New Journalism é um gênero que surgiu na imprensa dos Estados Unidos, na década de 60, que tem como principais expoentes Tom Wolfe, Gay Talese, Norman Mailer e Truman Capote. Classificado como romance de não-ficção, sua principal característica é misturar a narrativa jornalística com a literária.
Um bom exemplo deste segmento é o famoso perfil “Frank Sinatra está resfriado”, escrito por Gay Talese para revista Esquire em 1965, em que deixa de lado os formalismos da profissão para utilizar-se desta nova maneira de escrever. O gênero teria sido lançado em algumas revistas ainda no final da década de 50, como a Harper’s, The New Yorker e a própria Esquire.
Uma narrativa pra lá de criativa
Diante da impossibilidade de não entrevistar seu personagem principal, no caso o Frank Sinatra, Talese procurou montar um tipo de quebra cabeça da vida de seu perfilado, buscando atores, músicos, executivos de estúdios, produtores musicais, donos de restaurantes e mulheres que de algum modo, tinham mantido relação com o famoso cantor ao longo dos anos.
Sendo assim, as várias “pecinhas deste jogo” pôde refletir a imagem mais próxima do real, até mais do que poderia ter sido se Telese tivesse o acesso direto ao homem em que ele constatou como “o mito que esteve durante décadas sob os refletores e que deixou sua marca imagética na inconsciente indústria do entretenimento e consciência americana”.
Nesta história, a boa apuração, os personagens coadjuvantes e o acesso ao mundo de Sinatra, mesmo sem o autor ter estado ele, permite o leitor ter um maior envolvimento com o fato narrado pelo repórter-escritor. Para isso, Talese conta que procura estar sempre presente em seu papel de curioso e companheiro digno de confiança para assim descrever ao máximo, tudo o que aquelas pessoas representavam e pensavam sobre o mito.
Sua descrição nas formas de como deixar o entrevistado mais a vontade e tomar nota das observações mais importantes sem intimidá-lo, de fato é notável. Ele expõe que em geral, os entrevistados sentem-se lisonjeados quando você pede para repetir uma declaração relevante e quando isso é ressaltado, o entrevistado muitas vezes, não só repete, como
desenvolve ainda mais o tópico abordado.
Suas observações de como faz suas entrevistas e percebe os entrevistados, são narradas minuciosamente. De como ele sai correndo para escrever após a entrevista além de detalhes da sua narrativa antes de dormir ou de como ele lembra o ambiente e até mesmo as impressões pessoais de seus entrevistados. Desta forma, segundo ele, seu texto reafirma o ponto de vista mais apropriado, principalmentem depois de ter passado horas escutando suas fontes.
Para essa minuciosidade descrita, aplausos. Com certeza esse é o real diferencial para aqueles que querem envolver seu leitor numa boa história.
Com todas estas estratégias, Telese usa de sua habilidade para desvendar em detalhes a vida de Sinatra, inclusive o seu lado mais frágil. Ele tenta mostrar Sinatra como um homem, com suas inseguranças, arrogância e necessidades, inerentes a qualquer ser humano, inclusive num ícone como Sinatra.
Apesar de tantos detalhes, Talese deixa algumas vertentes da realidade da vida “mais comum” de Frank um pouco esquecida, pois mesmo ele apontando Sinatra como um mero homem, ele o glamouriza em alguns momentos na mente do leitor, afinal ele está falando “do Sinatra”. Seus constantes envolvimentos com fãs, por exemplo, apesar de indicado no texto, não foi aprofundado.
Lições jornalísticas
Mais que a vida do Frank Sinatra em si, a narrativa de Talese revela para nós, jornalistas, como devemos ter paciência, ser atentos, ouvir e descrever cenas que permitam enxergar o caráter e a personalidade de um indivíduo. De como no texto, podemos traçar novos caminhos e formas de apuração.
O New Journalism, com certeza é uma das mais interesantes narrativas para expressar de forma limpa e cativante o incansável trabalho do jornalista: chegar o mais próximo da realidade alcançando ou não, um personagem principal.
Por tudo isso e muito mais, as experimentações de Talese de fato fundamenta este plausível segmento que, sendo bem feito, não só o profissional, mas principalmente o leitor sai ganhando. O jornalismo só agradece. 😉
Veja AQUI o texto integral do Gay Talese: Frank Sinatra está resfriado
